
Miguel e a Tartaruguinha do Mar
Miguel e a Tartaruguinha do Mar
Um livro feito para Miguel
Miguel adora nadar e sabe tudo sobre tartarugas. Mas, numa manhã de praia, ele encontra uma tartaruguinha presa e perdida, e um mergulho mágico o leva até o fundo do mar. Será que ele consegue levar a nova amiga para casa antes que o sol se ponha?
Miguel adorava nadar. Na água, ele virava peixe, virava golfinho, mas, principalmente, virava tartaruga. Bate perna, estica braço, e lá ia ele, flutuando no mar verdinho da praia. Splash! Splash! As ondas faziam cócegas na barriga dele. Miguel sabia tudo sobre tartarugas: que elas nadam longe, que são antigas como o mar e que não gostam de pressa. Por isso ele tinha um jeito só seu de nadar: "Devagarinho, com carinho."

Naquela manhã, perto das pedras, Miguel ouviu um barulhinho: tec, tec, tec. Era uma tartaruguinha verde, presa num emaranhado de linha de pesca velha. Ela se debatia, assustada. "Calma, eu vou te ajudar", disse Miguel, ajoelhando na areia molhada. A linha estava apertada e cheia de nós. Ele não puxou com força. Foi soltando um nó de cada vez, devagarinho, com carinho. Até que — plim! — a última volta escorregou.

A tartaruguinha sacudiu as nadadeiras e, para espanto de Miguel, falou: "Obrigada! Meu nome é Tatá." Ela contou que tinha se perdido da família, que morava no Jardim de Coral, lá no fundo. "Preciso chegar antes do pôr do sol, senão o caminho fica escuro demais." Miguel nem pensou duas vezes: "Eu vou com você!" Tatá soprou uma bolha brilhante, que — blup! — envolveu a cabeça dele como um capacete de vidro.

Miguel mergulhou. E que surpresa! Ele respirava debaixo d'água como se fosse ar de manhã fresquinha. Lá embaixo, o mar era uma festa: peixes listrados de amarelo, estrelas-do-mar cor de laranja, anêmonas que dançavam de um lado para o outro. Tudo brilhava em azul. "Por aqui!", chamou Tatá. Miguel bateu as pernas, esticou os braços, e os dois deslizaram juntinhos, como duas tartarugas.

Logo chegaram a uma floresta de algas altas, tão altas que escondiam a luz. Era tudo verde-escuro e escorregadio. As folhas compridas balançavam: chuá, chuá. "Ai, Miguel, eu me perco sempre aqui", sussurrou Tatá, encolhendo a cabeça no casco. Miguel olhou para cima e viu, lá longe, um fiozinho de sol. "Vamos seguir a luz", disse ele, segurando a nadadeira da amiga. E foram atravessando, folha por folha.

Do outro lado, porém, o mar tinha pressa. Uma correnteza forte passava zunindo — vuuuush! — levando conchas, areia e pedacinhos de alga. Tatá era pequena demais e começou a rodopiar. "Segura em mim!", gritou Miguel. Ele bateu as pernas com toda a força que tinha aprendido nas ondas da praia. Bate, bate, bate! Lado a lado, os dois venceram a correnteza e chegaram, ofegantes, a uma grande parede de pedra.

O sol lá em cima já ficava dourado. "O Jardim de Coral é logo depois daquele túnel!", disse Tatá. Mas, na entrada do túnel, havia alguém. Um baiacu amarelo, redondo feito uma bola, todo cheio de espinhos espetados. "Ninguém passa!", resmungou ele, inchando ainda mais. Puff! Agora ele tampava a passagem inteirinha. Tatá se escondeu atrás de Miguel. "Esse é o Bolota. Ele é muito bravo."

Tatá apontou para longe. "Podemos dar a volta pela outra pedra." Mas o caminho era comprido, e o sol já descia. Miguel olhou para o baiacu. Bolota bufava, mas seus olhos pareciam molhados, como os de quem está com dor. Miguel respirou fundo dentro da bolha. Ele podia gritar, podia empurrar. Mas escolheu outra coisa. Chegou pertinho, bem devagar, e falou baixinho: "Devagarinho, com carinho... Você está machucado, Bolota?"

Bolota piscou, surpreso. Ninguém nunca tinha perguntado aquilo. Ele virou o corpo e mostrou a nadadeira: um saco plástico estava enrolado nela, apertando tanto que doía. "Por isso eu fico inchado", confessou. "Quando dói, eu fico bravo." Miguel lembrou da linha de pesca de Tatá. "Posso tirar?" O baiacu fez que sim. Com dedos cuidadosos, Miguel foi desenrolando, sem pressa, até o plástico sair inteirinho. Fsssss... Bolota foi murchando, murchando.

Sem os espinhos espetados, Bolota até parecia sorrir. "Obrigado, menino. Venham, eu conheço este túnel melhor que ninguém!" Os três atravessaram a passagem e, do outro lado, o mundo se acendeu: era o Jardim de Coral, cheio de cor-de-rosa, roxo e laranja, brilhando na luz do fim de tarde. Lá no meio, uma tartaruga enorme abriu os olhos. "Tatá!" Era a Vovó Coral. E Tatá nadou para o abraço mais apertado do mar.

Vovó Coral olhou para Miguel com olhos de quem já viu o mar inteiro. "Você soltou a minha neta, ajudou o Bolota e não desistiu nenhuma vez. Isso é coisa de coração grande." Miguel ficou vermelhinho. Ele guardou o plástico do Bolota no bolso do calção, para jogar no lixo lá em cima. Então Tatá o acompanhou até a superfície. Quando a cabeça dele saiu da água — ploc! — a bolha estourou, e o céu estava cor de laranja.

Na areia morninha, enrolado na toalha, Miguel viu uma cabecinha verde aparecer entre as ondas. Tatá acenou com a nadadeira e mergulhou de volta para casa. Miguel sorriu. Antes de ir embora, ele catou uma tampinha, um canudo e um pedaço de linha esquecidos na praia, e jogou tudo no lixo, junto com o plástico do Bolota. Depois olhou para o mar e sussurrou, como quem conta um segredo: "Devagarinho, com carinho."
