
Davi, o Super-Herói do Coração
Davi, o Super-Herói do Coração
Um livro feito para Davi
Davi ama futebol, desenhos e ajudar a mãe na cozinha, mas neste sábado ele quer uma coisa a mais: ser um super-herói de verdade! Com uma capa feita de pano de prato e um coração de papel no peito, ele sai pelo bairro procurando seu superpoder. Será que Davi vai descobrir que o poder mais forte de todos estava com ele o tempo todo?
Era sábado, e a cozinha da casa do Davi cheirava a bolo de banana. Tec, tec, tec! A mãe batia a massa, e o Davi ajudava a quebrar os ovos com todo o cuidado. Quando não estava na cozinha, Davi estava chutando bola ou desenhando. E o que ele mais gostava de desenhar eram super-heróis voando por cima dos telhados. "Mãe, um dia eu vou ser um super-herói de verdade", disse ele, com farinha até no nariz.

A mãe riu e abriu a gaveta dos panos de prato. Lá no fundo, encontrou um pano vermelho, velhinho e macio. "Que tal uma capa?" Davi correu para pegar os lápis. Desenhou um coração amarelo, recortou com a tesourinha e prendeu bem no meio do peito. Depois, amarrou a capa nos ombros, estufou o peito e falou bem alto, do jeito que os heróis falam: "Capa no ombro, coração no peito: hoje eu ajudo de qualquer jeito!"

Todo super-herói precisa de um superpoder. Davi subiu no sofá, abriu os braços e contou: "Um, dois, TRÊS!" Pulou bem alto e... pof! Caiu de bumbum nas almofadas. Tentou levantar a mesa com um dedo só. Nada. Tentou ficar invisível atrás da cortina, mas o pé ficou de fora. Davi suspirou e ajeitou o coração de papel. "Será que eu sou um super-herói sem nenhum poder?"

Mesmo assim, Davi pegou a bola e saiu para o campinho da rua. No caminho, ouviu um barulho: ploft, ploft, ploft! Era a Dona Cida, a vizinha. A sacola tinha rasgado, e as laranjas rolavam pela calçada como bolinhas douradas. Davi não tinha superforça, mas tinha duas mãos e pernas bem rápidas. Correu atrás de uma, de outra, de mais outra. "Obrigada, meu herói!", disse a Dona Cida, com um sorriso enrugadinho.

No campinho, os amigos já gritavam: "Vem, Davi! Falta um no time!" O sol esquentava a grama, e a bola fazia tum, tum no chão. Davi estava louco para marcar um golaço, daqueles de desenho animado. Mas, no banco de madeira, perto da árvore, havia um menino que ele nunca tinha visto. Ele usava óculos e abraçava os joelhos, olhando o jogo bem quietinho. Ninguém chamava o menino para jogar.

O jogo começou. Davi driblou a Bia, passou pelo Lucas e correu, correu, correu! O gol estava vazio, esperando por ele. Era a chance do golaço! Davi armou o chute... e, com o canto do olho, viu o menino do banco. Ele tinha abaixado a cabeça, sozinho, sozinho. De repente, o coração de papel pareceu pesar no peito do Davi. Gol ou menino? Menino ou gol? A perna dele ficou parada no ar.

Davi parou a bola com o pé. "Ei, o que você tá fazendo?", gritou o Lucas. "Era gol certo!" Mas o Davi já corria para o banco, com a capa vermelha balançando. "Oi! Eu sou o Davi. Quer jogar com a gente?" O menino arregalou os olhos atrás dos óculos. "Eu sou o Theo. Sou novo aqui... e não jogo muito bem." Davi sorriu e estendeu a mão: "Capa no ombro, coração no peito: a gente aprende de qualquer jeito!"

Theo entrou em campo meio sem jeito. Tropeçou uma vez, errou um chute, e todo mundo riu junto, inclusive ele. Então Davi viu o Theo livre, pertinho do gol. Podia chutar sozinho, mas preferiu tocar a bola com carinho: tuc! Theo chutou com toda a força. A bola bateu na trave, plim, e entrou! "GOOOL!" Theo pulava, a Bia batia palmas, o Lucas gritava. Davi não fez o golaço, mas sentiu o peito quentinho, como bolo saindo do forno.

No fim da tarde, os dois sentaram na grama para descansar. Davi tirou do bolso um papel dobrado e um toco de lápis amarelo. Desenhou, caprichou, pintou. Era outro coração, igualzinho ao dele. "Pra você. Agora a gente é uma dupla de heróis." Theo prendeu o coração na camiseta e ficou com as bochechas vermelhas de alegria. "Amanhã tem jogo de novo?" "Tem, sim! E você vai estar no meu time."

Quando Davi voltou para casa, encontrou a mãe sentada na cozinha, com cara de cansada. A pia estava cheia de panelas, e a mesa, cheia de migalhas de bolo. Davi não pensou duas vezes. Subiu no banquinho, arregaçou as mangas e lavou as colheres: splash, splash! Varreu as migalhas, empilhou os pratos e até guardou a farinha no armário. Depois, piscou para a mãe: "Capa no ombro, coração no peito: hoje eu ajudo de qualquer jeito!"

A mãe olhou a cozinha brilhando e abriu os braços. Davi se aninhou num abraço cheiroso de canela. "Mãe, eu não voei, não fiquei invisível, nem levantei a mesa com um dedo." Ele pensou nas laranjas da Dona Cida, no gol do Theo e na pia limpinha. Então deu um sorrisão. "Mas acho que descobri o meu superpoder. Ele não fica na capa. Fica aqui", disse, batendo de leve no coração de papel.

À noite, a capa vermelha descansava pendurada na cadeira, e a casa ainda cheirava a bolo de banana. Davi, já de pijama, desenhou um último super-herói antes de dormir. Esse não voava por cima dos telhados. Ele catava laranjas, passava a bola e lavava colheres. Davi bocejou, apagou a luz e sussurrou bem baixinho, para não acordar ninguém: "Capa no ombro, coração no peito... amanhã eu ajudo de novo, do meu jeito."
