
Alice e o Gato de Estrelas
Alice e o Gato de Estrelas
Um livro feito para Alice
Alice adora planetas, foguetes e, mais do que tudo, montar quebra-cabeças. Numa noite estrelada, um robozinho perdido bate na sua janela: uma chuva de asteroides despedaçou uma constelação inteira, e só alguém muito paciente pode juntar as peças de novo. Será que Alice consegue montar o maior quebra-cabeça do universo?
Alice tinha óculos redondos e vermelhos, um quarto cheio de planetas de papel pendurados no teto e uma mania: quebra-cabeças. Naquela noite, mil pecinhas do Sistema Solar se espalhavam pelo tapete. Faltava quase todo o anel de Saturno, o pedaço mais difícil, todo bege e parecido. Alice empurrou os óculos no nariz, escolheu uma peça e tentou. Não encaixou. Tentou outra. Também não. Ela sorriu mesmo assim e cochichou o seu segredo de montadora: “Peça por peça, passo por passo.” Lá fora, as estrelas piscavam, tlim, tlim, como se estivessem escutando.

De repente: toc, toc, toc! Alguém batia na janela. Alice abriu a cortina e deu de cara com um robozinho prateado, redondo como uma bola de futebol, com uma antena que piscava azul. “Meu nome é Pipo”, disse ele, com voz de chaleira chiando. “Uma chuva de asteroides quebrou o Gato Sonolento!” Alice olhou para o céu. No lugar onde sempre via aquele desenho de estrelas em forma de gato, havia só um buraco escuro. “Sem ele, eu não sei voltar para casa”, choramingou Pipo. “As estrelas viraram peças e se espalharam pelo espaço.”

Peças? Alice sentiu um formigamento na ponta dos dedos. Se tinha uma coisa que ela sabia fazer, era juntar peças. Pipo encostou a antena no foguete de brinquedo da estante, o Cometa, vermelho e branco, com três aletas amarelas. Fiuuu! O foguete cresceu, cresceu, até ficar do tamanho de um armário. Alice colocou o capacete de bolha, pendurou a mochila nas costas, apertou o cinto e segurou firme. “Três... dois... um...” VRUUUUM! A janela se abriu sozinha, as cortinas dançaram, e o Cometa disparou rumo às estrelas, deixando um rastro de faíscas douradas sobre os telhados adormecidos.

Lá de cima, a Terra parecia uma bola de gude azul e verde. Logo apareceu a Lua, prateada e cheia de buracos. “Ali!”, apontou Alice. No fundo de uma cratera, uma pecinha dourada brilhava. Ela desceu do foguete e deu o primeiro passo. Boing! Pulou tão alto que quase deu uma cambalhota. Boing, boing! A poeira subia devagarinho, macia como farinha. Na terceira tentativa, conseguiu parar bem em cima da peça e a guardou na mochila. “Uma!”, comemorou Pipo, girando de alegria. Alice ajeitou os óculos. “Peça por peça, passo por passo.”

Em Marte, tudo era vermelho: o chão, as pedras, até o vento, que assobiava fiiiu entre as montanhas. Pipo farejou com a antena. “Tem três peças aqui, mas estão enterradas!” Alice se ajoelhou e começou a cavar com as mãos. A areia era fina e escapava entre os dedos. Uma rajada de vento, vuuush, cobriu o buraco outra vez. Ela bufou, limpou os óculos na manga do pijama e recomeçou, agora protegendo o buraco com as costas. Uma peça. Duas. Três! Os dedos estavam cor de ferrugem, mas a mochila tilintava, tlim, tlim, tlim.

Júpiter era enorme, listrado de laranja e creme, e tinha uma tempestade gigante que rodava sem parar: VRRRUUUM. Lá dentro, cinco peças douradas giravam como folhas num redemoinho. Alice esticou o braço pela escotilha. Errou. Esticou de novo. Errou outra vez. “É rápido demais!”, gritou Pipo. Alice respirou fundo e ficou só olhando. As peças davam a volta sempre do mesmo jeito, como os ponteiros de um relógio maluco. “Um, dois, três... agora!” Ela pegou uma. Esperou a volta seguinte e pegou outra. E mais outra, até a última. Pipo piscou a antena de orgulho, plim, plim!

Nos anéis de Saturno, o problema era outro. As últimas peças estavam misturadas a milhares de pedrinhas de gelo que também brilhavam. Era igualzinho ao pedaço bege do quebra-cabeça do quarto: tudo parecido, tudo confuso. “Não vamos achar nunca”, suspirou Pipo. Mas Alice conhecia aquele tipo de bagunça. “Pedra de gelo é redondinha”, explicou. “Peça tem pontinhas e buraquinhos. A gente procura as formas, não o brilho.” E assim, devagar, pedrinha por pedrinha, ela foi separando. Plic, uma pedra. Plic, outra. Até que, entre o gelo, apareceram as quatro últimas peças douradas.

De volta ao lugar escuro do céu, Alice abriu a mochila, e as peças flutuaram em volta dela como vaga-lumes. Ela começou pelas bordas, do jeito que sempre fazia. As orelhas pontudas. As patas. O corpo enroladinho. Cada peça que encaixava fazia clic e acendia uma estrela. “Está ficando lindo!”, disse Pipo. Mas faltava uma. O único buraco que sobrava era o do rabo, e a última peça, comprida e curvinha, não entrava. Alice empurrou. Apertou. Tentou dez vezes. Vinte. E nada. A peça teimava em não encaixar.

Alice sentiu os olhos arderem atrás dos óculos vermelhos. Os braços estavam cansados, as pernas também. “Talvez seja melhor desistir”, murmurou Pipo, e a luz da antena ficou fraquinha, quase apagando. Alice olhou para a peça na mão. Pensou no quarto, no anel de Saturno ainda sem terminar, em todas as vezes que uma peça parecia impossível. Então enxugou os olhos e balançou a cabeça. “Não. Peça por peça, passo por passo.” Ela parou de empurrar e começou a observar. Reparou num cantinho pontudo... e numa curva que parecia de cabeça para baixo. E se ela virasse a peça?

Alice girou a peça devagar, bem devagar, e a encostou no buraco do rabo. CLIC! Por um instante, o espaço inteiro ficou em silêncio. Depois, todas as estrelas do Gato Sonolento se acenderam ao mesmo tempo, douradas e quentinhas. O gato de estrelas se espreguiçou, deu um bocejo enorme, miiiaaau, e balançou o rabo, desenhando um caminho de luz pelo céu. “Você conseguiu!”, gritou Pipo, rodopiando com a antena acesa como um farol. “Agora eu sei o caminho de casa!” Alice riu tão alto que o capacete embaçou. Seu coração batia feliz, tum-tum, tum-tum.

O caminho de luz levou o Cometa até a casa do Pipo, uma pequena estação prateada em forma de cúpula, flutuando perto de Saturno, com janelas redondas acesas. “Obrigado, Alice”, disse ele, e entregou a ela uma estrelinha dourada do tamanho de um botão. “Para você lembrar que nenhuma peça é difícil demais.” Alice guardou o presente no bolso do pijama e deu um abraço apertado no robozinho, que fez um barulhinho de chaleira feliz. Depois, o Cometa seguiu o rabo brilhante do Gato Sonolento até a Terra azul, descendo, descendo, até a janela aberta do quarto.

Quando Alice tirou o capacete, o Cometa já era de novo um foguete de brinquedo na estante. No tapete, as pecinhas bege do anel de Saturno esperavam por ela. Alice se sentou, empurrou os óculos no nariz e escolheu uma peça. Não encaixou. Ela a girou. Clic! Depois outra, e mais outra, até o quebra-cabeça inteiro ficar pronto. Pela janela, o Gato Sonolento brilhava no céu, e lá longe, perto de Saturno, uma luzinha azul piscou duas vezes. Alice segurou a estrelinha dourada e sorriu. “Peça por peça, passo por passo.”
